
Nem só de livros e debates vive um estudante universitário. Há situações engraçadas na nossa vida acadêmica. O interessante de tudo isso é o “nível cultural” das piadas. Certa feita, numa das turmas de direito em que estudo, logo no começo do período, deparei-me com uma das cenas mais engraçadas de minha caminhada: um dos alunos perguntou ao professor se este seria “durão” e ele respondeu que sim. Acompanhe o diálogo:
Aluno: Professor, o senhor é rigoroso com a questão das faltas e aplicação de provas?
Professor: Sim e muito.
Aluno: Mas professor... Lembre-se de que já cruzamos o “cabo da Boa Esperança”...
Professor (irônico): Certo, certo... Mas não esqueça que antes ele era o “cabo das Tormentas”...
Para quem não entendeu e não achou graça, trago aqui um pequeno trecho da história das Grandes Navegações. Com a tomada de Constantinopla pelos turcos, o comércio português de especiarias ficou prejudicado. Numa tentativa de se encontrar um novo caminho até as Índias, Portugal lançou-se ao mar. Bartolomeu Dias, um dos heróis desse tempo, chefiou uma dessas expedições marítimas e, ao chegar ao extremo sul da África, contornou um cabo (imagem acima). Durante a passagem, no entanto, passou por várias tormentas e tempestades, o que fez dar-lhe o nome de cabo das Tormentas. O rei João II, entretanto, decidiu renomeá-lo cabo da Boa Esperança, pois, contornando-o, descobriu-se um outro caminho para as Índias. Lembrando da história, o aluno ligou-a de imediato à vida acadêmica: até o “cabo”, que seria a metade do curso, dificuldades; depois, só calmaria e lucros. Entretanto, pelo que vi do professor, acredito não ser bem assim.
Ah, falando em cabos, tormentas e travessias, recordei-me desse poema de Fernando Pessoa que, por analogia, embora trate dum outro cabo, bem revela a nossa vida acadêmica. Segue o poema:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.”