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sexta-feira, 2 de janeiro de 2009
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Saulo Bandeira
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sexta-feira, janeiro 02, 2009
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sábado, 28 de junho de 2008
Sobre palavras e pensamentos (parte 1)
Neologismo
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
que traduzem a ternura mais funda
e mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.
Agora este trecho de Uma canção inédita, de Edu Lobo e Chico Buarque:
“Se você beijar um outro, pode se partir
A valsa
Mas se roendo-as-unhasmente me quiser ouvir
Descalça no breu
Pé ante pé
Abra o peito bem devagar
E deixe
Sete notas a vibrar
E feche ”
Observem: no primeiro texto o sentimento do poeta é muito mais que amor (atentem: o sentimento, melhor dizendo, o verbo é intransitivo...). Entretanto, como expressar isso se não há uma palavra pronta, apta a mostrar tudo aquilo que ele sente pela amada? No segundo caso, não é apenas nervosismo, é um nervosismo de “roer as unhas”, isto é, roendo-as-unhasmente. Fantástico!
Pois bem. Nesta postagem quereria conversar com vocês, queridos 5 leitores, não sobre beijos, mas sobre palavras e pensamentos. Afinal, como é que um pensamento se transforma em palavra? Como uma idéia ganha forma? Nem eu, nem os maiores estudiosos da filosofia da mente, sabemos. Sobre esse ponto, lúcido é o ensinamento de Sexto Empírico, em seu Contra os Matemáticos (os destaques são meus):
“E, mesmo admitindo que seja concebido [o ente], não pode ser comunicado a outro. Com efeito, se os entes, os que existem fora de nós, são visíveis, audíveis e em geral perceptíveis, e destes os visíveis são captáveis com a visão, os audíveis com a audição e não o contrário, como é possível então manifestá-los a outro? Com efeito, aquilo com que manifestamos é a palavra, mas a palavra não coincide com os entes existentes. Portanto, aos outros não manifestamos os entes, mas a palavra que é diversa dos entes concretos. Então, como a realidade visível não pode se tornar audível e vice-versa, também o ente que se concretiza fora de nós não pode se tornar palavra nossa. Não sendo uma palavra, o ente não pode ser evidenciado a outro.”
O Direito, assim como qualquer ciência Ética (Ética aqui entendida como a escolha da melhor assertativa entre duas, as quais são ambas possíveis, mas excludentes, qual a lição dada pelo prof. João Maurício, em sua Filosofia do Direito) marcada pela linguagem, não está imune a isso. Exemplos claros são as definições de “homem médio”, “dignidade da pessoa humana”, “Estado democrátido de direito”, só para citar os mais comuns. Observe que os exemplos dados tem alta carga de subjetividade e podem servir aos mais variados discursos e, neles, assumir os mais discrepantes (algumas vezes até contraditórios) sentidos. E é aí, meus caros, onde mora o perigo...
Semestre acadêmico passado (acadêmico, pois terminamos 2007.2 agora em 2008...) uma colega de turma apresentou em sua monografia um tema que ganhou força após os atentados de 11 de setembro, nos EEUU: o direito penal do inimigo. Segundo o entendimento do mentor dessa teoria, aqui comentada muito resumidamente, deveria haver dois códigos penais: um para os cidadãos, mais brando; e outro para os “inimigos”, mais severo. Mais: tal direito penal deveria atuar antes dos delitos, isso porque os “inimigos” põem em risco o pacto social, ou, mais claramente, a sobrevivência da sociedade como tal. Mas, quem são os inimigos? Tal teoria, em um Estado totalitário, é por demais perigosa, uma vez que os “inimigos”, melhor dizendo, a palavra “inimigo” pode assumir qualquer conteúdo e pôr em risco (vejam só!) a própria sociedade.
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sábado, junho 28, 2008
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domingo, 15 de junho de 2008
Será que você consegue?
Clique na imagem e boa sorte!

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Saulo Bandeira
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domingo, junho 15, 2008
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sexta-feira, 13 de junho de 2008
Dia dos namorados (parte 2)
Namorados
O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:
- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.
A moça olhou de lado e esperou.
- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?
A moça se lembrava:
- A gente fica olhando...
A meninice brincou de novo nos olhos dela.
O rapaz prosseguiu com muita doçura:
- Antônia, você parece uma lagarta listada.
A moça arregalou os olhos, fez exclamações.
O rapaz concluiu:
- Antônia, você é engraçada, você parece louca.
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Saulo Bandeira
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sexta-feira, junho 13, 2008
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quarta-feira, 21 de maio de 2008
Por que esse caso não foi à televisão?

Mais uma preciosidade extraída do blog do prof. Eduardo Rabenhorst
Crueldade gratuita
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Saulo Bandeira
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quarta-feira, maio 21, 2008
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Forró?
Repasso o texto do crítico musical José Teles sobre o “forró moderno”...
A música dos valores perdidos
“Tem rapariga aí? Se tem levante a mão!”. A maioria, as moças, levanta a mão.
Diante de uma platéia de milhares de pessoas, quase todas muito jovens, pelo menos um terço de adolescentes, o vocalista da banda que se diz de forró utiliza uma de suas palavras prediletas (dele só não, de todas bandas do gênero). As outras são “gaia”, “cabaré”, e bebida em geral, com ênfase na cachaça. Esta cena aconteceu no ano passado, numa das cidades de destaque do agreste (mas se repete em qualquer uma onde estas bandas se apresentam). Nos anos 70, e provavelmente ainda nos anos 80, o vocalista teria dificuldades em deixar a cidade.
O secretário de cultura Ariano Suassuna foi bastante criticado, numa aula-espetáculo, no ano passado, por ter malhando uma música da banda Calipso, que ele achava (deve continuar achando, claro) de mau gosto. Vai daí que mostraram a ele algumas letras das bandas de “forró”, e Ariano exclamou: “Eita que é pior do que eu pensava”. Do que ele, e muito mais gente jamais imaginou.
Pruma matéria que escrevi no São João passado baixei algumas músicas bem representativas destas bandas. Não vou nem citar letras, porque este jornal é visto por leitores virtuais de família. Mas me arrisco a dizer alguns títulos, vamos lá: Calcinha no chão (Caviar com Rapadura), Zé Priquito (Duquinha), Fiel à putaria (Felipão Forró Moral), Chefe do puteiro (Aviões do forró), Mulher roleira (Saia Rodada), Mulher roleira a resposta (Forró Real), Chico Rola (Bonde do Forró), Banho de língua (Solteirões do Forró), Vou dá-lhe de cano de ferro (Forró Chacal), Dinheiro na mão, calcinha no chão (Saia Rodada), Sou viciado em putaria (Ferro na Boneca), Abre as pernas e dê uma sentadinha (Gaviões do forró), Tapa na cara, puxão no cabelo (Swing do forró). Esta é uma pequeníssima lista do repertório das bandas.
Porém o culpado desta “desculhambação” não é culpa exatamente das bandas, ou dos empresários que as financiam, já que na grande parte delas, cantores, músicos e bailarinos são meros empregados do cara que investe no grupo. O buraco é mais embaixo. E aí faço um paralelo com o turbo folk, um subgênero musical que surgiu na antiga Iugoslávia, quando o país estava esfacelando-se. Dilacerado por guerras étnicas, em pleno governo do tresloucado Slobodan Milosevic surgiu o turbo folk, mistura de pop, com música regional sérvia e oriental. As estrelas da turbo folk vestiam-se como se vestem as vocalistas das bandas de “forró”, parafraseando Luiz Gonzaga, as blusas terminavam muito cedo, as saias e shortes começavam muito tarde. Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, o diretor do Centro de Estudos alternativos de Belgrado. Milan Nikolic, afirmou, em 2003, que o regime Milosevic incentivou uma música que destruiu o bom-gosto e relevou o primitivismo estético. Pior, o glamur, a facilidade estética, pegou em cheio uma juventude que perdeu a crença nos políticos, nos valores morais de uma sociedade dominada pela máfia, que, por sua vez, dominava o governo.
A cantora Ceca foi uma espécie de Ivete Sangalo do turbo folk (ainda está na estada, porém com menor sucesso). Foram comprados 100 mil vídeos do seu casamento com Arkan, mafioso e líder de grupo para-militares na Croácia e Bósnia. Arkan foi assassinado em 2000. Ceca presa em 2003. Ela não foi a única envolvida com a polícia, depois da queda de Milosevic, muitos dos ídolos do turbo folk envolveram-se com a justa pelo envolvimento com a poderosa máfia de Belgrado.
A temática da turbo folk era sexo, nacionalismo e drogas. Lukas, o maior ídolo masculino do turbo folk pregava em sua música o uso da cocaína. Um dos seus maiores hits chama-se White (a cor do pó, se é que alguém ignora), e ele, segundo o Guardian, costumava afirmar: “Se cocaína é uma droga, pode me chamar de viciado”. Esteticamente, além da pouca roupa, a sanfona é o instrumento que se destaca tanto no turbo folk quanto no chamado forró eletrônico, instrumento decorativo, ali muito mais para lembrar das raízes da música tradicional. Ressaltando-se que não se tem notícia de ligação entre bandas de “forró” e crime organizado. No que elas são iguaizinhas é que proliferaram em meio a débâcle de valores estéticos, morais, e éticos, e despolitização da juventude. Com a volta da governabilidade nas repúblicas da antiga Iugoslávia, o turbo folk perdeu a força, vende ainda porém muito menos do que no passado, hoje é apenas uma música popular para se dançar, e não a trilha sonora de um regime condenado por, entre outras lástimas, genocídio.
Aqui o que se autodenomina “forró estilizado” continua de vento em popa. Tomou o lugar do forró autêntico nos principais arraiais juninos do Nordeste. Sem falso moralismo, nem elitismo, um fenômeno lamentável, e merecedor de maior atenção. Quando um vocalista de uma banda de música popular, em plena praça pública, de uma grande cidade, com presença de autoridades competentes (e suas respectivas patroas) pergunta se tem “rapariga na platéia”, alguma coisa está fora de ordem. Quando canta uma canção (canção ?!!!) que tem como tema uma transa de uma moça com dois rapazes (ao mesmo tempo), e o refrão é “É vou dá-lhe de cano de ferro/e toma cano de ferro!”, alguma coisa está muito doente. Sem esquecer que uma juventude cuja cabeça é feita por tal tipo de música é a que vai tomar as rédeas do poder daqui a alguns poucos anos.
Em tempo: o texto foi extraído daqui. Preciosidade enviada por e-mail pelo amigo Ramon Rebouças.
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Saulo Bandeira
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quarta-feira, maio 21, 2008
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quinta-feira, 15 de maio de 2008
Senhoras e Senhores, Vitorino Silva!
Bom, mas o que é que isso tem a ver com o título da postagem? Quis criar aqui uma “desculpa” para, primeiro, apresentar o trabalho de um grande amigo, lá dos idos tempos da Escola Técnica, Vitorino Silva. Vitorino é estudante de Letras lá na UFPE e poeta, por “obrigação”, pois a poesia não pede, manda. A segunda é escusar-me de apresentar-lhe minha opinião diante de seus textos. Primeiro não tive tempo, como já lhes informei numa postagem anterior, e, segundo, pelo que lhes informei nos parágrafos anteriores: jamais descobrirei o que quis ele dizer e meu sentimento, diante dos poemas, será certamente diverso. Além do mais, se Umberto Eco estiver certo, o texto terá sua própria intenção e aí, amigos, jamais chegaremos a um consenso.
Sem mais delongas, apresento-lhes três poemas dele. Apreciem.
Sem Descanso
Corro
como um rio na chuva
Debalde
Inundo o tempo que me resta
com a perenidade insone da jornada
meu próprio leito me é estrada
e nessa marcha que enebria
me invade
a constante sensação de
curva
Curva que abrevia a visão
Visão distorcida pela chuva
Chuva que inunda a estrada
Estrada que obstrui a vida
Homem Combustível (Crime e Castigo)
Um homem que se propõe a andar na negra fumaça
Não percebe nada além
De sua cegueira e sufocamento
Quando, enfim, por algum motivo, a nuvem passa
Ele traz impregnado na pele o cheiro incendiado
Seu suor, cinzento
sua lágrima, carvão
Quando, no corpo, lhe escorre a água limpa
Aos seus pés, enegrecida,
Evapora em névoa de escuridão.
LISPECTOR
Escutar a palavra estranha,
cinzas de um sentido a mais,
foi finalmente encontrar
a luz que desespera,
o cativeiro que aconchega.
a palavra que é mister tatear,
acostumar-se.
(o talo da rosa no ouvido)
(o dragão chinês no intestino)
“a familiaridade que condena por insistir-se alheia”
a palavra mesmo
que remete a nada
e não precisa se explicar
a matéria bruta do silêncio,
presente, penetrante,
que, quando ignorada,
permanece latente
e sobretudo perpétua.
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Saulo Bandeira
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quinta-feira, maio 15, 2008
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Caso Isabella Nardoni, por Cantardo Calligaris
A turba do “pega e lincha”
Outro dia passei duas horas em frente à televisão. Não adiantava zapear: quase todos os canais estavam, ao vivo, diante da delegacia do Carandiru, enquanto o pai da pequena Isabella estava sendo interrogado. O pano de fundo era uma turba de 200 ou 300 pessoas.
Permaneceriam lá, noite adentro, na esperança de jogar uma pedra nos indiciados ou de gritar “assassinos” quando eles aparecessem, pedindo “justiça” e linchamento.
Mais cedo, outros sitiaram a moradia do avô de Isabella, onde estavam o pai e a madrasta da menina. Manifestavam sua raiva a gritos e chutes, a ponto de ser necessário garantir a segurança da casa. Vindos do bairro ou de longe (horas de estrada, para alguns), interrompendo o trabalho ou o descanso, deixando a família, os amigos ou, talvez, a solidão - quem eram? Por que estavam ali? A qual necessidade interna obedeciam sua presença e a truculência de suas vozes?
“Os alemães que saíram para saquear os comércios
dos judeus na “Noite de Cristal” faziam isso porque
queriam sobretudo afirmar sua diferença”
Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, em uma câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.
Há os que querem ser vistos por parentes e amigos do bar, e fazem sinais ou erguem cartazes. Mas, em sua maioria, os membros da turba se animam na hora do “ao vivo” como se fossem “extras”, pagos por uma produção de cinema.
Qual é o script? Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.
“A vontade exasperada de afirmar sua
diferença é própria de quem se sente
ameaçado pela similaridade do outro”
Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella. Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela.
Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: “nós”, que não matamos Isabella; “nós”, que amamos e respeitamos as crianças - em suma: “nós”, que somos diferentes dos assassinos; “nós”, que, portanto, vamos linchar os “culpados”.
Em parte, a irritação que sinto ao contemplar a turma do “pega e lincha” tem a ver com isto: eles se agitam para me levar na dança com eles, e eu não quero ir. As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.
O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença.
“Querem linchar para esquecer que ontem
voltaram bêbados e não sabem em quem bateram”
Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles.
Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue.
A turba do “pega e lincha” representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.
Em tempo: o texto foi extraído do blog do prof. Eduardo Rabenhorst. Há boas coisas lá. Para conhecer o blog, clique aqui.
Inté.
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Saulo Bandeira
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quinta-feira, maio 15, 2008
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terça-feira, 22 de abril de 2008
O fio de Ariadne
Ainda hoje, os “minotauros” continuam erigindo seus “labirintos”, onde a humanidade se perde e, não encontrando a saída, serve para “matar a fome” (insaciável, diga-se de passagem) de poder dos dominadores. É o que acontece hoje no Nordeste do Brasil com as secas e nas campanhas políticas com o populismo. Entretanto a Humanidade dispõe do “Fio de Ariadne”, a Filosofia, como ferramenta para não se perder no “labirinto”, poder identificar o “minotauro” e assim “matá-lo”.
A Filosofia, creio eu, através de sua busca incessante pela Verdade e pelo Conhecimento – mesmo acreditando que a Verdade é algo inalcançável – é um dos caminhos para a libertação humana, para a construção de uma vida nova e mais justa.Em tempo: o texto introdutório foi extraído daqui.
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sábado, 19 de abril de 2008
Tempo e artista

Tempo e artista - Chico Buarque
Onde o tempo é a grande estrela
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela
Modelando o artista ao seu feitio
O tempo, com seu lápis impreciso
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapesos de um sorriso
Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta
O velho cantor subindo ao palco
Apenas abre a voz, e o tempo canta
Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito
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domingo, 6 de abril de 2008
Aviso aos 9 leitores
Um grande abraço.
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sexta-feira, 14 de março de 2008
A poesia pelos poetas (parte 6)

Qual a matéria prima do poeta?
Uma palavra - Chico Buarque
Palavra prima
Uma palavra, só a crua palavra
Que quer dizer
Tudo
Anterior ao entendimento, palavra
Palavra viva
Palavra com temperatura, palavra
Que se produz
Muda
Feita de luz mais que de vento, palavra
Palavra dócil
palavra d'água pra qualquer moldura
Que se acomode em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra
Palavra minha
Matéria prima, minha criatura, palavra
Que me conduz
Mudo
E que me escreve desatento, palavra
Talvez, à noite
Quese-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra
Palavra boa
Não de fazer literatura, palavra
Mas de habitar
Fundo
O coração do pensamento, palavra
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Saulo Bandeira
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sexta-feira, março 14, 2008
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A poesia pelos poetas (parte 5)

Como escrever?
Catar feijão - João Cabral de Melo Neto
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebra dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.
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Saulo Bandeira
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A poesia pelos poetas (parte 4)

Então, onde está a poesia?
Ubiqüidade - Manuel Bandeira
Estás em tudo que penso
Estás em quanto imagino
Estás no horizonte imenso
Estás no grão pequenino
Estás na ovelha que pasce
Estás no rio que corre
Estás em tudo que nasce
Estás em tudo que morre
Em tudo estás, nem repousas
oh ser tão mesmo e diverso
(Eras no início das coisas
Serás no fim do universo)
Estás na alma e nos sentidos
Estás no espírito estás
Na letra, e, os tempos cumpridos,
No céu, no céu estarás
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Saulo Bandeira
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sexta-feira, março 14, 2008
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A poesia pelos poetas (parte 3)
O que deve ser escrito numa poesia?
A procura da poesia - Carlos Drummond de Andrade
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no esucro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
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Saulo Bandeira
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A poesia pelos poetas (parte 2)

Por que escreve o poeta?
Mundo grande (trecho) - Carlos Drummond de Andrade
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que carregam petróleo e livros, carne e algodão.
Vistes as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofre tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem... sem que ele estale.
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Saulo Bandeira
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